Infarto em idosos e novas diretrizes: o que orienta as decisões sobre o tratamento do coração
Atualizações das Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia abordam o cuidado com a pessoa idosa, as doenças das válvulas e a insuficiência cardíaca.
Por Gilberto Lahorgue Nunes, cardiologista intervencionista
Ter mais de 80 anos deve impedir um cateterismo ou uma angioplastia após um infarto? A decisão exige uma avaliação que vai além da idade. Condições gerais de saúde, fragilidade, capacidade de compreender e participar das escolhas, expectativa de vida e preferências do paciente precisam ser consideradas.
Esse cuidado individualizado é um dos pontos centrais para compreender as novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Publicados em outubro de 2026, os documentos atualizam as orientações sobre cardiogeriatria, valvopatias e insuficiência cardíaca e ajudam a responder uma questão presente no consultório: como aplicar as evidências científicas às necessidades de cada paciente?
Infarto depois dos 80 anos
Ao avaliar o tratamento do infarto em pessoas muito idosas, precisamos ponderar os benefícios esperados e os riscos dos procedimentos. Duas pessoas da mesma idade podem apresentar condições de saúde e níveis de independência bastante diferentes.
A fragilidade, o comprometimento cognitivo e a presença de outras doenças ajudam a definir qual abordagem pode oferecer maior benefício. Uma doença grave que limite a expectativa de vida, por exemplo, pode alterar esse equilíbrio e os objetivos do tratamento.
Um estudo apresentado no Congresso Europeu de Cardiologia avaliou pacientes com 80 anos ou mais com infarto sem supradesnivelamento do segmento ST. A pesquisa comparou o cateterismo de rotina com uma estratégia que utilizava exames não invasivos (cintilografia ou ecocardiograma de stress) para selecionar quem seria submetido ao procedimento.
O estudo não conseguiu comprovar que selecionar os pacientes utilizando exames não invasivos seja tão eficaz e seguro em reduzir os eventos cardiovasculares maiores (morte, infarto ou AVC não fatais) quanto a realização do cateterismo de rotina em octogenários com síndrome coronariana aguda. Entretanto, isso não significa que, em alguns pacientes octogenários selecionados por critérios clínicos, a estratégia não invasiva inicial não possa ser utilizada.
Os achados deste estudo reforçam o conceito de que é necessário analisar o conjunto das evidências e avaliar cuidadosamente cada paciente, visando individualizar a conduta mais adequada para aquele caso (medicina personalizada).
Participação do paciente e cuidado multiprofissional
A pessoa idosa que tem condições de compreender as informações deve participar das decisões sobre seu tratamento. A família pode contribuir nesse processo, respeitando sua autonomia. Quando há comprometimento da capacidade de decidir, a equipe médica precisa considerar essa condição e envolver os familiares responsáveis no processo decisório.
Outro aspecto importante é o acompanhamento multiprofissional. Além dos cuidados cardiológicos, o idoso pode precisar de apoio da geriatria, enfermagem, fisioterapia, nutrição e educação física, conforme suas necessidades.
As mudanças que acontecem com a idade precisam ser tratadas em conjunto. Por isso, a avaliação deve contemplar aspectos como alimentação, mobilidade e capacidade de realizar as atividades diárias, além dos medicamentos e procedimentos para o coração.
Como as diretrizes orientam o atendimento
As diretrizes médicas reúnem e avaliam criticamente o conhecimento científico disponível sobre determinada doença. A partir dessa análise, apresentam recomendações para apoiar o diagnóstico, o acompanhamento e o tratamento.
Estes documentos ajudam a incorporar os resultados das pesquisas ao atendimento dos pacientes, mas não substituem o julgamento clínico nem a avaliação individual. Cabe ao médico considerar as recomendações à luz das condições de cada paciente e discutir as opções de cuidado.
Tratamentos por cateter para as doenças das válvulas
Na nova diretriz de valvopatias, um dos destaques é o fortalecimento das recomendações para intervenções por cateter.
No tratamento da estenose aórtica grave, quando há indicação de intervenção e o paciente apresenta baixo risco cirúrgico, o documento estabelece preferência pela cirurgia de peito aberto em pacientes com idade abaixo dos 70 anos. Já em pacientes com idade igual ou superior aos 80 anos, o implante por cateter da válvula aórtica (TAVI) é a primeira opção, independente do risco cirúrgico. Entre 70 e 80 anos, ambas as alternativas de tratamento recebem igual grau de recomendação sendo que, por ser menos invasiva e associada a uma recuperação mais rápida, a TAVI acaba sendo a alternativa preferencial. É importante também ressaltar que a escolha do tratamento dever levar em consideração caraterísticas anatômicas, condições clínicas e a preferência do paciente.
Também avançaram as recomendações para intervenções por cateter em determinados casos de insuficiência das válvulas mitral e tricúspide, nas quais o fechamento incompleto destas válvulas provoca o refluxo de sangue. A indicação depende das características da doença e da avaliação da equipe.
Essa atualização da diretriz amplia as possibilidades de tratamento por cateter, mas exige uma análise cuidadosa para definir qual alternativa é mais adequada em cada situação.
Insuficiência cardíaca: prevenção e tratamento precoce
Na insuficiência cardíaca, merecem atenção o controle dos fatores de risco, o acompanhamento multiprofissional e a identificação de alterações incipientes nos exames cardiológicos antes do aparecimento dos sintomas. Em pessoas selecionadas, essa avaliação permite iniciar medidas visando reduzir o risco de progressão da doença.
Outro destaque é a importância da vacinação em pacientes portadores de insuficiência cardíaca. A diretriz recomenda a proteção contra influenza, covid-19, pneumococo e vírus sincicial respiratório, conforme as indicações aplicáveis a cada paciente. Essas infecções podem agravar a insuficiência cardíaca e levar a mais hospitalizações.
O documento também aborda medicamentos utilizados no tratamento da obesidade em pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. Nessa condição, o coração mantém sua capacidade de ejetar sangue, mas pode apresentar dificuldade para relaxar e se encher adequadamente. Estudos com semaglutida e tirzepatida ampliaram as possibilidades de tratamento para grupos específicos de pacientes com obesidade e essa forma da doença.
Para quem já faz tratamento, essas atualizações das diretrizes cardiológicas qualificam e refinam o cuidado e, consequentemente, podem ser discutidas nas consultas de acompanhamento. A avaliação cardiológica permite identificar quais recomendações se aplicam à situação de cada pessoa e se há necessidade de ajustar os cuidados.
