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O tratamento das doenças cardíacas estruturais por cateter representa a nova fronteira da cardiologia intervencionista.
Cada vez mais, os tratamentos por cateter vêm sendo aplicados com bons resultados, especialmente em pacientes nos quais a cirurgia de peito aberto é contraindicada ou de alto risco.
Com certeza, a sua utilização e o refinamento dos seus resultados irá revolucionar o tratamento de uma série de doenças cardíacas, tornando-se uma alternativa extremante eficaz e menos invasiva do que a cirurgia de peito aberto.
O Dr. Gilberto Lahorgue Nunes aborda o tema neste vídeo, apontando a técnica como alternativa.

A Cardiologia Intervencionista é uma subespecialidade da Cardiologia que envolve todos os tratamentos passíveis de serem feitos por cateter. Durante muitos anos, foi sinônimo de tratamento das obstruções das artérias coronárias como uma alternativa a cirurgia de ponte de safena.

Em anos recentes, houve uma expansão das indicações e das técnicas de tratamento por cateter para permitir também a abordagem das doenças que acometem as válvulas cardíacas e das doenças cardíacas que podem levar ao acidente vascular cerebral (AVC).

Com relação às válvulas, já está comprovado, por vários estudos clínicos controlados, que o implante de uma válvula por cateter para o tratamento de uma doença chamada estenose (estreitamento) da válvula aórtica leva a resultados tanto imediatos quanto tardios tão bons quanto os da cirurgia convencional de peito aberto.

Essa equivalência de resultados foi demonstrada em todos os subgrupos de pacientes com estreitamento da válvula aórtica, quer seja aqueles com risco cirúrgico baixo, alto, ou mesmo naqueles pacientes nos quais o risco é proibitivo e a cirurgia contraindicada.

Mais recentemente, começaram a ser realizadas intervenções para o tratamento da válvula mitral, especificamente para tratar uma doença chamada insuficiência da válvula mitral. Nos pacientes portadores dessa doença, a válvula mitral não faz a vedação de forma adequada, permitindo o refluxo de sangue para os pulmões e levando a um quadro de insuficiência cardíaca. Estudos clínicos controlados demonstraram que a colocação por cateter de um clipe nessa válvula pode fazer com que a evolução desses pacientes seja melhorada em relação ao tratamento clínico com medicamentos. Em um desses estudos (e que incluiu um número maior de pacientes) foi demonstrado que, ao final de dois anos de acompanhamento, houve uma redução da taxa de mortalidade dos pacientes que foram submetidos ao tratamento por cateter.

Uma outra área na qual os procedimentos por cateter têm demonstrado bons resultados é na prevenção dos acidentes vasculares cerebrais (“derrames” cerebrais) provocados por liberação de coágulos a partir do coração e a sua embolização para as artérias do cérebro.

Existem duas situações básicas nas quais esse fenômeno pode acontecer. Na primeira delas, uma falta de fechamento da membrana (septo) que separa as cavidades superiores do coração (chamadas de átrios direito e esquerdo) pode permitir que coágulos formados nas veias das pernas possam cruzar para o lado esquerdo do coração e causarem a obstrução temporária ou permanente de uma artéria que irriga o cérebro. Em pacientes jovens, com menos de 55 anos e que já tenham sofrido uma isquemia cerebral sem causa aparente, o fechamento por cateter do defeito do septo que separa os átrios reduz de maneira significativa a ocorrência de um novo acidente vascular cerebral em comparação com o tratamento com medicamentos.

A segunda situação envolve os pacientes portadores de uma arritmia cardíaca chamada de fibrilação atrial, na qual o uso de anticoagulantes (medicamentos que impedem o sangue de coagular) são indicados para prevenir a embolização de coágulos para o cérebro. Nos pacientes que apresentam alto risco de sangramento ou que tenham contraindicação ao uso dos anticoagulantes, a oclusão por cateter de uma cavidade intracardíaca chamada apêndice atrial esquerdo (aonde a maioria dos coágulos são formados) é uma alternativa segura e eficaz de prevenção do acidente vascular cerebral embólico. Além disso, este tratamento por cateter confere uma proteção contra o risco de sangramento associado ao uso prolongado dos anticoagulantes.



As artérias coronárias são as que alimentam o coração. Elas podem sofrer obstruções que impedem o fluxo do sangue, causando cansaço, dor e até infarto.
Em praticamente dois terços dos pacientes, é possível tratá-las por meio da angioplastia com implante de stents. A angioplastia dura de 30 minutos a três horas e é realizada através de um cateter introduzido pelo pulso na artéria radial e guiado até o coração.

Abaixo, exemplos de casos complexos tratados com sucesso com implante dos stents coronários:

 

1) Oclusão da coronária direita
Paciente com a coronária direita 100% obstruída há aproximadamente dois anos. Angina importante aos pequenos esforços e grande área de isquemia na região irrigada por essa coronária.

2) Oclusão da coronária direita 2
Com o emprego de materiais e técnicas especiais, foi possível recanalizar a oclusão e implantar stents coronários, restituindo o fluxo normal pela coronária direita.

3) Tronco 1
Paciente internada em caráter de urgência por quadro de infarto do miocárdio.
O cateterismo cardíaco realizado mostrou obstrução importante no tronco da coronária esquerda envolvendo as origens de duas coronárias principais.

4) Tronco 2
Aspecto final após o tratamento com o implante de stents coronários.



 

O mundo tem acompanhado com grande atenção a recente epidemia de gripe causada pelo coronavírus na China. O impacto deste novo surto sobre a saúde cardiovascular global ainda não foi determinado. Inúmeras evidências científicas demostram uma forte associação entre surtos de gripe e a ocorrência de eventos cardiovasculares graves.

Surtos de gripe estão associados a um aumento expressivo do número de internações por infarto, com o risco sendo maior nos primeiros sete dias após o diagnóstico. A gripe causa inflamação generalizada no organismo, ativando a coagulação e predispondo à ruptura de placas de gordura nas artérias, ambos mecanismos reconhecidamente causadores do infarto.

Estudos populacionais indicam que a vacinação contra a gripe reduz de maneira significativa a ocorrência de infarto. Estudos clínicos controlados sugerem que um evento cardiovascular (infarto e derrame cerebral entre outros) é evitado a cada 58 indivíduos vacinados.

Baseado nestas evidências, o Center for Diseases Control americano recomenda a vacinação contra a gripe em todos os indivíduos acima dos 50 anos, especialmente aqueles com alguma forma de doença cardiovascular. As sociedades cardiológicas americanas também recomendam a utilização da vacinação anual como forma de prevenção de novos eventos cardiovasculares em pacientes portadores de aterosclerose. A força dessa recomendação é de magnitude semelhante às de outras estratégias de prevenção de eventos (como o controle da pressão arterial e do colesterol).

Nesse contexto, causa apreensão a falta de ação dos órgãos da saúde e de nós médicos no sentido de indicar a vacinação contra a gripe como forma de prevenção também de eventos cardiovasculares, da mesma forma que recomendamos a cessação do fumo ou o controle do colesterol. Dessa forma, a vacinação sistemática contra a gripe é uma forma eficaz e barata de prevenção de infarto do miocárdio. Essa é uma excelente razão adicional para nos vacinarmos todos os anos.

(Gilberto Lahorgue Nunes, ZH, 13/02/20)

 


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